ITALIANIDADE PAULISTANA – Limone: O gosto da italianidade

Essa história chegou até mim depois de uma conversa. Conversa? Bem, não sei se aquela chegou a ser uma, tão breve que foi…

É estranho isso: há anos você cruza com a mesma pessoa, no mesmo corredor, e nunca trocou mais do que duas ou três palavras com ela… Quase todo santo dia, fala um Buongiorno aqui, um Ciao ali, mas nunca, nunca lhe perguntou o porquê; o que não deixa de ser uma coisa muito esquisita, porque, verdade seja dita, você até conhece seus filhos pelo nome, mas, pasme! Nunca, nunca mesmo lhe perguntou o porquê – ainda que já lhe tenha esboçado um sorriso e, num dia extraordinário, já tenha lhe dado um abraço…

É aí então que, sem razão nem porquê – do nada! como se diz – essa pessoa puxa você para esta conversa e fala, num fôlego só, como se fosse lhe pedir para cuidar de uma palavra fugida, com gosto de desabafo, de urgência:

Tenho uma história pra você. É sobre italianidade… E, não contente, acrescenta – dessa vez, como se falasse em itálico e negrito: é sobre ITALIANIDADE PAULISTANA… Interessa?
Respondi com uma naturalidade imprudente, meio desavisada que estava:

— Buongiorno, ciao! Claro que sim, me envia em áudio. Pelo whats!
*

Dois dias se passaram e nada dos áudios da Fabiana. Foi então que a minha imprudência se vestiu de audácia e, às vinte e duas horas e vinte e dois minutos, pensei se deveria mandar uma mensagem a ela. Meio tarde, eu sabia; inconveniente pelo horário, imprudente até, porque, convenhamos, ser insistente com a história dos outros não é coisa que se faça. Mas o fato é que a audácia gritou alto no meu ouvido e eu enviei a mensagem. Ela respondeu em seguida:

— Noossa! Estava aqui me preparando pra dormir, justamente pensando sobre a minha italianidade, quando de repente, puf!

— Não pense que estou te pressionando… Envie os áudios quando puder – escrevi de volta.
Mentira das boas! Queria mesmo que ela os enviasse logo, na sequência da mensagem, para ser sincera..

Mais dez minutos se passaram depois daquela nossa conversa e os áudios chegaram. E eu, a desaforada, só os ouvi no dia seguinte, bem tarde da noite. Foi de propósito, pois sabia que eles iriam mexer comigo.

E como mexeram.
*

A história da Fabiana responde a uma pergunta – aquela que, por anos, ainda que fosse no corredor, eu deveria ter feito a ela: Por quê?

Se eu tivesse feito a tal domandina, ela já teria me contado uma história do jeitinho que são as histórias bonitas; com título e tudo:

Gelato al limone… Esse seria o título da minha história – ela teria me dito naquele corredor… Então me faria uma descrição exata de como seu coração bateu acelerado naquela noite quando, aos oito ou nove anos, seus pais comunicaram que ela iria viajar – sozinha – com a avó para a Itália. E ela me contaria como foi fazer as malas, como foi dormir na véspera da viagem… E como foi acordar cedinho do outro lado do mundo, sem saber falar uma frase inteira em italiano… E ela deixaria tudo muito claro, explicando porque o gelato sabor limone (não chocolate, não pistache) até hoje é o gosto mais gostoso que sentiu na vida… Me falaria que sua italianidade começou assim, dentro de uma sorveteria, ao lado de outras crianças que, mal sabia, levaria para a vida inteira… E me diria que, vez ou outra, só para ter o gostinho de se lembrar das palavras que lhe faltaram um dia, ela toma um gelato de limone.

Ao contar sua história-resumo para mim, seus olhos se encheriam de água – não de lágrimas tristes, mas de uma água fresca e transbordante, daquelas que não cabem no lugar onde precisam estar. E, a este ponto, ela me revelaria o seu maior segredo; o tesouro que carrega no coração desde os oito ou nove anos… A gioia de ter pego para si aquele fio de italianidade e o ter trazido consigo para São Paulo…

Se eu tivesse lhe perguntado o porquê, então Fabiana me diria que, por nada neste mundo largaria esse fio de italianidade, e que acha que é por isso que escolheu ser professora – de italiano – para crianças – em São Paulo…

Ela teria me dito tudo isso em uma daquelas conversas que sempre temos no corredor… Teria me dado todos os porquês… Me falado da sua italianidade com gosto de limone.

Helenice Schiavon é designer educacional, especializada em projetos com storytelling e oralidade. Professora, pedagoga e locutora técnica, escreve ensaios sobre italianidade em São Paulo em Pittoresca.

Ouça o podcast Eu, Storyteller com os textos desta coluna aqui.

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