“Imigrantes de exceção”, italianos mostraram o Brasil aos brasileiros no florescer da fotografia no país

Livro “Italianos Detrás da Câmera” reúne material bibliográfico inédito sobre a contribuição desses trabalhos em território nacional, ao mesmo tempo que evidencia baixo interesse acadêmico sobre o tema em relação a outros setores de pesquisa do legado italiano

Partindo da premissa que há enorme discrepância na abordagem da influência italiana no Brasil em determinados segmentos artísticos e culturais – como artes plásticas, arquitetura e música – em relação a outros – no caso, a fotografia – , o livro Italianos Detrás da Câmera – Trajetórias e olhares marcantes no florescer da fotografia no Brasil busca preencher essa lacuna.

A obra, recém-lançada pela editora Unesp e organizada pelos pesquisadores Joaquim Marçal Andrade e Livia Raponi, reúne material bibliográfico inédito sobre a contribuição italiana no país através da oitava arte entre meados do século 19 e início do 20 – período em que o Brasil vivia diversas transformações urbanísticas, arquitetônicas e culturais.

Virgilio Calegari: regatas em Porto Alegre, 1900 / Acervo do Museu de Porto Alegre Joaquim Felizardo

O livro apresenta nove nomes de fotógrafos italianos que, movidos pelos mais diversos interesses, se embrenharam pelo território nacional na descoberta de sua diversidade paisagística, étnica, cultural e urbana. Considerados, muitas vezes, “imigrantes de exceção”, por desembarcarem sozinhos no Brasil, o trabalho dessas pessoas foi fundamental para mostrar o Brasil também aos brasileiros, que até então, não tinham acesso às inúmeras realidades desse país continental.

Neste processo, o legado deixado pelos fotógrafos italianos em terras brasileiras se subdivide por temáticas e, outras vezes, por técnicas. Registros etnográficos e antropológicos, paisagísticos e urbanos, retratos e até imagens que mesclam as estéticas da fotografia e da pintura são alguns exemplos de estilos praticados por tais imigrantes de norte a sul.

Guido Boggiani: indígena Mbaya no Rio Nabileque em Mato Grosso do Sul. / Sistema museale dell’università

degli studi di Firenze

No registro de povos originários no extremo norte e centro-oeste brasileiros, impossível não citar Ermanno Stradelli (1852 –1926) e Guido Boggiani (1861–1902). O primeiro, um nobre da região da Emilia Romagna, e o segundo, um bom frequentador da elite romana, ambos com inúmeras contribuições para a Sociedade Geográfica Italiana, além de outros setores que vão além da fotografia, distinguem suas abordagens de outros compatriotas italianos e europeus ao não exercerem um olhar de superioridade eurocêntrica sobre os nativos.

O peso do equipamento naqueles tempos também não impediu a presença de fotógrafos itinerantes pelo interior do país. O genovês João Firmo (1839 –1889) e Nicola Maria Parente (1846 –1911), da Basilicata, percorreram diversos estados brasileiros do nordeste, norte e sudeste, realizando retratos individuais ou em grupos. No caso de Parente, ele vai além: é um dos pioneiros em território nacional a realizar imagens cinematográficas locais e exibi-las para a população em sessões de filmes.

Vincenzo Pastore: meninos engraxates no Largo São Bento, em São Paulo, 1910. /Instituto Moreira Salles

Ainda no âmbito dos retratos, o pugliese Vincenzo Pastore (1865–1918) é uma das grandes referências do período. Desembarcou como fotógrafo profissional no Brasil em 1894, sendo um dos primeiros a registrar as ruas de São Paulo em seu cotidiano. Além de fotografar trabalhadores manuais e ambulantes pela cidade, Pastore também tinha consciência da influência da pintura na composição de cenas fotográficas. Assim, explorou as imagens feitas com câmera através de exposições múltiplas e monocromáticas, bem como, fez uso da fotopintura, que reúne as duas artes.

Camillo Vedani: Farol da Barra, Salvador, 1865. / Instituto Moreira Salles

Com seu olhar “geométrico”, o engenheiro Camillo Vedani (18?–1888), se destacou com a documentação fotográfica urbana nacional. Além das paisagens do Rio de Janeiro e Salvador em meados do século 19, Vedani fotografou obras em andamento, como a estação Central do Brasil, na capital fluminense, ou já concluídas, como o Teatro São João, na Bahia, deixando um importante registro histórico sobre as cenas municipais de época.

No sul do país, um dos maiores nomes dos primórdios da fotografia é de Virgilio Calegari (1868–1937). Lombardo de nascimento, chegou ao Brasil com 13 anos. Ainda muito jovem, aprendeu, em Porto Alegre, o ofício de fotógrafo com o espanhol João Antonio Iglesias e com o alemão Otto Schönwald. Foi o principal retratista da capital gaúcha de seu tempo. Em seu ateliê, a fim de distrair os clientes que aguardavam por atendimento, Calegari criou uma sala repleta de registros fotográficos, o que demonstra originalidade na prestação de seus serviços.

Imagem de capa: Ermanno Stradelli: Praça da Imperatriz, em Manaus, 1884 / Archivio Società Geografica Italiana

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BRUNA GALVÃO é jornalista especializada em Itália / pittoresca@pittoresca.com.br

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